Este ano, 2020, está sendo um ano super turbulento para o mundo todo. Quem diria que além de todos os problemas políticos que nosso país enfrenta, uma pandemia tomou o mundo todo e o colocou em suspenso... Parece que estou vivendo em um filme distópico e ruim...
E eu comecei a sentir uma grande angústia, uma vontade de voltar a escrever, mais para organizar meus pensamentos do que para qualquer outra coisa.
Então, voltei!
Exatos 5 anos e 3 meses depois do meu último post, estou de volta! Não vou estabelecer frequência de postagem; vou escrever sempre que conseguir, sempre que achar necessário, mas sem me prender a prazos.
Em breve, tô pensando em fazer algumas "reformas": um novo layout, novas cores... mas por enquanto vou deixar assim mesmo. Me perdoem a preguiça...
Meus pais nasceram e cresceram "na roça": meu pai numa vilazinha e minha mãe num sítio, chamado "Quenta-Sol", ambos perto de Sapucaia, já quase na divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais.
Na minha infância, quase todos os domingos de manhã nós saíamos de Teresópolis e íamos visitar a parte da família que ainda morava na Vila Nossa Senhora Aparecida, a tal vilazinha.
Tenho boas lembranças desse tempo, que hoje parece tão distante. A casa dos meus avós não ficava rente ao chão, mas apoiada numa estrutura a quase um metro de altura, aberta em todas as laterais. Em baixo da casa, milhares de coisas velhas ficavam guardadas e eu, meus irmãos e meus primos passávamos horas ali, garimpando tesouros.. até um gramofone tinha lá.
Me lembro também da casinha de sapê do tio João Rosa, na verdade, meu tio-avô. Me lembro dos seus pés rudes, das mãos ásperas, mas que sempre traziam uma novidade qualquer para as "crianças da cidade": uma flor diferente, uma frutinha, um inseto colorido...
Minha avó criava galinhas e tinha um galo que implicava com uma das minhas tias: era só ver a coitada que ele saía correndo, cacarejando e tentando bicar a mulher que corria, gritando por ajuda. Era uma cena muito, mas muito engraçada mesmo!
Meu avô sentava na poltrona da varanda e ficava horas ali, contando causos e mais causos.
Minhas tias ficavam na cozinha, ao redor do fogão de lenha, que era feito de cimento tingido de vermelho e sempre tinha o fogo acesso. Pela janela da cozinha, o barulho da bica: a água desviada de um riachinho corria por uma canaleta feita de bambu gigante, que acabava num tipo de tanque, que era na verdade uma pedra escavada. Lembro que a gente colocava uma folha ou uma flor no início da canaleta e ficava acompanhando todo a trajeto, até o tanque. Era muito divertido ver a folha ou a flor descendo pela água, girando e dando um pulinho quando batia nas divisões dos gomos do bambu.
Ao longe, sempre tinha uma bela moda de viola tocando, música caipira de verdade, tipo Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Milionário e Zé Rico e por aí vai...
Acho que vem daí o meu gosto por causos e música caipira: eles me trazem esses momentos de absoluta felicidade, e acho que só hoje eu percebi isso.
Bem, tudo isso me veio à mente depois de ter lido um poema lindo, que reproduzo aqui em baixo. Sei que é grande, mas vale a pena ser lido.
A RESPOSTA DO JECA TATU Autor: Catullo da Paixão Cearense
Seu dotô, venho dos brêdo,
Só pra mode arrespondê
Toda aquela fardunçage
Qui vancê foi inscrevê!
Num teje vancê jurgano
Qui eu sô argum cangussú!
Num sô não, Seu Conseiêro.
Sô norte, sô violêro
e vivo naquelas mata,
como veve um sanhaçu!
Vassucê já mi cunhece:
Eu sô o Jeca Tatu!
Cum tôda essa má piáge,
Vassucê, Seu Senadô,
Nunca, um dia, se alembrô,
Qui, lá naquelas parage,
A gente morre de fome
E de sêde, sin sinhô!
Vassuncê só abre o bico,
Pra cantá, como um cancão,
Quano qué fazê seu ninho,
Nos gáio duma inleição!
Vassuncê, qui sabe tudo,
É capaiz de arrespondê
Quando é que se ouve,
Nos mato,
O canto do zabelê?
Em qui hora é qui o macuco
Se põe-se mais a piá?
E quando é que a jacutinga
Tá mio de se caçá?
Quando o uru, entre as foiage,
Sabe mais asubiá?
Qualé, de todas as arve,
A mais derêita, inpinada?
A qui tem o pau mais duro,
E a casca mais incorada?
Hem?
Vancê nun sabe quá é
A madêra qui é mais boa,
Pra se fazê uma canôa!
Vancê, no meio das tropa,
Dos cavalo, Seu Dotô,
Oiano pros animá,
Sem vê um só se movê,
Num é capáiz de iscuiê
Um cavalo iquipadô!
Eu quiria vê vancê,
No meio de uma burrada,
Somente pur um isturro,
Dizê, em conta ajustada,
Quantos ano, quantas manha,
Quantos fio tem um burro!
Vancê só sabe de lêzes,
Qui si faiz cum as duas mão!
Mais, porém, nun sabe as lêzes
Da Natureza, e qui Deus
Fêiz pra nóis, cum o coração!
Vancê nun sabe cantá,
Mais mió qui um curió,
Gemeno à bêra da istrada!
Vancê nun sabe inscrevê,
Num papé, feito de terra,
Quano a tinta é o do suó,
E quano a pena é uma inxada!
Se vancê nun sabe disso,
Num pode me arrespondê:
Óia aqui, Seu Conseiêro:
Deus nun fêiz as mão do home,
Somente pra ele inscrevê
Vassuncê é um Senadô,
É um Conseiêro, é um Dotô,
É mais do qui um Imperadô,
É o mais grande cirdadão,
Mais, porém, eu lhi agaranto,
Qui nada disso siría,
Naquelas mata bravia,
Das terra do meu Sertão.
A miséria, Seu Dotô,
Tombém a gente consola.
O orgúio é qui mata a gente!
Vancê qué sê persidente?
Eu sô quero ser...
Rocêro e tocadô de viola!
Vancê tem todo dereito
De ganhá cem mil pru dia!
Pra mió podê falá.
Mais, porém, o qui nun pode
É a inguinorânça insurtá,
A gente, Seu Conseiêro,
Tá cansado de isperá!
Vancê diz que a gente
Véve cum a mão no quêxo,
Assentado, sem fazê causo das coisa
Qui vancê diz no Senado.
E vassuncê tem razão!
Si nóis tudo é anarfabeto,
Cumo é que a gente vai lê
Toda aquela falação?
Priguiçôso? Maracêro?
Não sinhô, Seu Conseiêro!
É pruquê vancê nun sabe
O qui seja um boiadêro
Criá cum tanto cuidado,
Cum amô e aligria,
Umas cabeça de gado...
E, dipôis, a impidimia
Carregá tudo, cos diabo,
In mêno de quato dia!...
É pruquê vancê nun sabe
O trabáio disgraçado
Qui um home tem, Seu Dotô,
Pra incoivará um roçado...
E quano o ôro do mío
Vai ficano inbunecado,
Pra gente, intoce, coiê,
O mío morre de sêde,
Pulo só isturricado,
Sequinho, como vancê!
É pruquê vancê nun sabe
O quanto é duro, um pai sofrê,
Veno seu fio crescendo,
Dizeno sempre:
Papai, vem mi insiná o ABC!
Si eu subesse, meu sinhô,
Inscrevê, lê e contá,
Intonce, sim, eu havéra
Di sabê como assuntá!
Tarvêis vancê nun dexasse
O sertanejo morrendo,
Mais pió qui um animá!
Pru módi a puliticaia,
Vancê qué qui um home saia
Do Sertão, pra vim... votá?...
In Juaquim, Pêdo, ou Francisco,
Quano vem a sê tudo iguá?...
Priguiçôso? Madracêro?
Não!.. Não sinhô, Seu Conseiêro!
Vancê nun sabe di nada!
Vancê nun sabe a corage
Qui é perciso um home tê,
Pra corrê nas vaquejada!
Vossa Incelênça nun sabe
O valô di um sertanejo,
Acerano uma queimada!
Vamicê tem um casarão!
Tem um jardim, tem uma cháca.
Tem um criado de casaca
E ganha, todos os dia,
Quer chova, quer faça só,
Só pra falá... cem mirré!
Eu trabáio o ano intero,
Somente quando Deus qué!
Eu vivo, no meu roçado,
Mi isfarfando, como um burro,
Pra sustentá oito fio,
Minha mãe, minha muié!
Eu drumo inriba de um côro,
Numa casa de sapé!
Vancê tem seu... ortromóvi!
Eu, pra vim no povoado,
Ando dez légua, de pé!
O sór, têve tão ardente,
Lá pras banda do sertão,
Qui, in meno de quinze dia,
Perdi toda a criação!
Na semana retrasada,
O vento tanto ventô,
Qui a paia, qui cobre a choça,
Foi pus mato... avuô!
Minha muié tá morrendo,
Só pru farta de mezinha!
E pru farta de um dotô!
Minha fia, qui é bunita,
Bunita, como uma frô,
Seu Dotô, nun sabe lê!
E o Juquinha, qui inda tá
Cherano mêmo a cuêro,
E já puntêia uma viola...
Si entrasse lá, pruma iscola,
Sabia mais que vancê!
Priguiçôso? He... Madracêro?
Não... Não sinhô, Seu Conseiêro!...
Vancê diga aus cumpanhêro,
Qui um cabra, o Zé das Cabôca,
Anda cantano esses verso,
Qui hoje, lá no Sertão,
Avôa, de boca em boca:
(cantado)
Eu prantei a minha roça,
O tatu tudo cumeu!
Prante roça, quem quisé,
Qui o tatu, hoje, sou eu!
Vassuncê sabe onde tá o buraco
Adonde véve o tatu esfomeado?
Han?... Tá nos paláço da Côrte,
Dessa porção de ricaço,
Qui fêiz aquele palaço,
Cum sangre do disgraçado!
Vancês tem rio de açude,
Tem os dotô da Ingêna,
Qui é pra cuidá da saúde...
E nóis?... O qui tem? Arresponda!
No tempo das inleição,
Qui é o tempo da bandaiêra,
Nós só tem uma cangaia,
Qui é pra levá todas porquêra,
Dos Dotô Puliticáia!...
Sinhô Dotô Conseiêro,
De lêzes, eu nun sei nada!
Meu derêito é minha inxada,
Meu palaço é de sapé!
Quem dá lêzes pra famía
É a minha boa muié!
Vancê qué ser persidente?
Apois, seja!
Apois seja, Meu Patrão!
A nossa terra, o Brasí,
Já tem muita inteligênça,
Muito home de sabença,
Qui só dá pra... ó, ispertaião!
Leva o Diabo, a falação!
Pra sarvá o mundo intêro,
Abasta tê... coração!
Prus home di intiligênça,
Trago comigo essa figa:
Esses home tem cabeça.
Mais, porém, o qui é mais grande
Do que a cabeça... é a barriga!
Seu Conseiêro... um consêio:
Dêxe toda a birbotéca dos livro!
E, se um dia, vancê quisé
Passá ums dia de fome,
De fome e, tarvêiz de sêde,
E drumi lá, numa rêde,
Numa casa de sapê,
Vá passá comigo uns tempo,
Nos mato do meu sertão,
Que eu hei de lhe abri a porta
Da choça... e do coração!
Eu vorto pros matagá...
Mais, porém, oiça premêro:
Vancê pode nos xingá,
Chamá nóis de madraçêro.
Purquê nóis, Seu Conseiêro,
Nun qué sê mais bestaião!
Não!.. Inquanto os home di riba
Dexá nóis tudo mazombo,
E só cuidá dos istombo,
E só tratá di inleição...
Seu Conseiêro hái de vê,
Pitano seu cachimbão,
O Jeca-Tatu se rindo,
Si rindo... cuspindo
Sempre cuspindo,
Co quêxo inriba da mão!
Eu sei que sô um animá,
Eu nem sei mêmo o que eu sô.
Mais, porém, eu lhe agaranto
Qui o qui vancê já falô,
E o qui ainda tem de falá,
O qui ainda tem de inscrevê,
Todo, todo o seu sabê,
E toda a sua saranha...
Não vale uma palavrinha,
Daquelas coisa bunita,
Qui Jesuis, numa tardinha,
Disse, inriba da montanha...
Segundo Rolando Boldrin, Catulo da Paixão Cearense escreveu esse poema como uma resposta a um senador que disse numa entrevista que o caipira era um preguiçoso, por isso o nome "A Resposta do Jeca Tatu".
Ontem à noite fui dar uma volta na praia. O cenário não poderia ser mais bonito: céu praticamente sem nuvens, uma linda lua minguante, mas ainda quase cheia, o mar refletindo o brilho da lua.
Andei na beirinha do mar, sentindo as ondas mornas molharem os meus pés.
Seria o momento ideal para deixar nascer a poesia. Mas, não. Aquele cenário tão lindo, que nem parecia de verdade, não me inspirou coisa alguma. Não trouxe saudades de amores antigos, nem esperança de um amor futuro.
A única coisa que senti foi a incômoda sensação de um presente vazio e seco. Me perguntei como eu podia estar ali e não conseguir pensar em amor, nem em sonhos...
Chorei.
E descobri que minha poesia não se alimenta de tristeza, nem de lágrimas.
Hoje o meu balaio reflete um pouco da melancolia que estou sentindo. E como não estou com inspiração pra escrever, deixo que ele mesmo revele o que sinto nesse fim de tarde.
Uma das vantagens da internet é que a gente sempre conhece outras pessoas e algumas delas valem a pena. Eu já conhecia o Thiago Azevedo de ouvir falar, por um amigo que temos em comum, mas passei a conhecê-lo um pouquinho mais depois de ler os seus blogs, Descanso da Alma e Manga e Poesia .
E num passeio pelos escritos do Thiago, achei uma poesia linda, que publico aqui:
BELA ESTRELA
Thiago Azevedo
Uma estrela grita
Para longe no horizonte
Bem além de onde a vista avista
Bela estrela que guia
Os caminhantes perdidos
Na escuridão da vida
Rumo a um destino
A lhes dar guarida.
Estrela guia
Os simples e humildes
Que dormem sob sua luz
Ansiando um novo caminho
A dar boa paz, paz que reluz
De dentro da alma, dos corações
Estrela que anuncia
Boas novas de vida
Boas novas de paz.
Estrela de paz
Que trazes o que nasceu
E amor e vida nos deu
Pequena estrela
Veio nosso caminho iluminar
Um caminho de trevas
Um caminho sem paz
Bela e maravilhosa estrela
Que se chama amor
Que provém do Pai
Anuncia as boas novas de luz
Nos conduz de volta ao lar.
E falando de Natal e de poesia, me lembrei de uma música linda, de um outro amigo, Silvestre Kuhlmann, que nasceu poeta. Uma das suas músicas tá nesse video abaixo. Pena que no vídeo o finalzinho da música foi cortado, mas a letra está inteira aqui.
A MAIS BELA POESIA
Silvestre Kuhlmann
Esta é a mais bela poesia
Ver o Rei numa estrebaria
Esta é a mais bela poesia
O Deus onipotente
Dependente do colo de Maria
Esta é a mais bela poesia Aquele que forjou o universo
Trabalhou numa carpintaria
Aquele que cavalga nas asas do vento fez
Do jumentinho sua montaria
Esta é a mais bela poesia
Ver Jesus em nosso dia-a-dia
E no meio dessa correria
Fazer com ele parceria, melodia
E ver no simples a mais bela poesia.
FELIZ NATAL! Que em sua vida sempre haja música e poesia, porque Deus é poeta e nós somos poema dele.
Há algum tempo, meio presa em algum engarrafamento aqui no Rio, ouvi uma música muito legal, sobre a simplicidade da vida.
Depois, descobri que ela é do grupo Doces Cariocas e se chama "O que será que te excita?", e tem um jeito leve e divertido de pensar em nossas motivações.
O Que Será Que Te Excita?
O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?
O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?
O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can que a França dança?
O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?
O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?
O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?
Em 2006 essa poesia já esteve aqui... Hoje ela volta!
IMAGEM
em frente ao espelho tiro a roupa jogo tudo no chão me olho frente e verso e me encaro meu olhar é duro seios de quem amamentou barriga de quem pariu pelos pernas afastadas braços soltos pés no chão perfil gosto do que vejo em frente ao espelho uma vida inteira constato que o espelho, cúmplice, me sorriu não pela imagem que espelhava mas por tudo que intuiu http://roccana.blogspot.com/
Coisa boa é poder ter alguém como a Gláucia Carvalho entre os amigos... De vez em quando (ou seria de vez em sempre?), ela nos presenteia com sua poesia... Essa aí é linda... não resisti, tive que colocar aqui.
Ah... ela escreveu essa coisa linda depois de ler um livro de um cara muito dez, o William Douglas; conhecido como o "guru dos concursos", ele é um amor de pessoa.
Esses dois são presentes de Deus pra nós!
Meu último desejo...
O meu último desejo, O que choro, o que peço, O que pego, o que almejo, sou eu mesma...
O meu último desejo? é minha vida toda na mesa, São as cartas jogadas com certeza, é o preto no branco, o sim-sim, não-não, A verdade das coisas, o toque das mãos! O olhar de misericórdia, o sincero perdão...
O meu último desejo? é ter mais desejos,é ter meus segredos, guardados à dedo, pra sempre, pra sempre... é ver minha gente feliz, despreocupada, vendendo saúde, com conversa fiada...
Meu último desejo? é morrer sossegada... é partir com a certeza de que fiz tudo errado, de que fiz tudo querendo acertar, de que Deus me ama tanto, que na hora da morte, certamente irá relevar... Irá revelar, seu amor tão intenso, como eu tão intensa......
como meu último desejo..., meu desejo, meu desejo...... um suspiro, um último beijo...
meu desejo?O meu último desejo?... Um pedacinho de amor e uma mordida de queijo...
Gláucia Carvalho 27.10.2007 2h30 (depois de ler " A última Carta do Tenente " de William Douglas)
É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu sou triste...
(Vinicius de Moraes)
Com todo respeito que o Vinícius merece, eu altero a última estrofe: Mas acontece que estou triste... Tá chegando meu aniversário... Uma amiga toda esotérica sempre me disse que os dias que antecedem o aniversário são dias de "inferno astral"... Eu não acredito nisso, mas que os últimos dias têm sido complicados, isso têm.
Mas não os vejo como inferno astral, não vou culpar as estrelas por minhas angústias... nem por minhas alegrias...
Mesmo porque elas - as angústias - têm nomes, sobrenomes, endereços... E boa parte delas moram em mim mesmo!
Hoje eu achei essa letra dos Paralamas do Sucesso, do cd Severino, de 1997. Depois eu escrevo mais, só não queria deixar passar e acabar esquecendo...
O AMOR DORME
Todo amor dorme Numa caixa, numa gaveta, numa sala escura Que às vezes visito Como hoje num sonho Como Deneuve entre os pombos A abençoar seus queridos E o tempo, senhor dos enganos Apaga os momentos sofridos E aqui te traz vez por outra A passar umas horas comigo Ficamos nós dois entre sonhos De amores novos e antigos Te beijo no escuro silêncio da sala Que às vezes visito .
Esse texto foi escrito pra avó da autora... Me pergunto quantas ediths passaram por minha vida... ... e se eu algum dia serei edith pra alguém...
Almas perfumadas Ana Cláudia Saldanha Jácomo
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.