Quando
conseguiu avistar o lago entre as árvores e os arbustos, não tinha muita
certeza de como chegara até ali.
No
momento que inspirou mais fundo, sentiu a umidade enchendo o seu peito. E junto
com ela, um arrepio percorreu o seu corpo.
Lembrou-se
do arrepio que sentiu anos atrás, quando viu o mesmo lago pela primeira vez e
tocou sua água fria. Tinha sido apenas um toque rápido: a água fria encostou em
seus pés e, num susto, se retraiu.
A
emoção daquele arrepio permaneceu em uma das suas gavetas de lembranças, aquela
que não era muito mexida, porque era repleta de impossibilidades.
Mas
a umidade do lago abriu a gaveta: continuava cheia de cheiros, sensações,
lembranças... E de impossibilidades: umas antigas, outras nem tanto. Algumas,
tais como pequenas mariposas, voaram gaveta afora e se esvaneceram no ar,
deixando um quase invisível rastro de poeira naquele minúsculo raio de sol que
entrou por uma fresta da janela mal fechada.
E
olhando o lago, sentou-se na sua margem, abraçou as pernas e ficou observando
as libélulas que davam seus pequenos mergulhos na água, desejando, por um
instante ter a mesma coragem.
Este ano, 2020, está sendo um ano super turbulento para o mundo todo. Quem diria que além de todos os problemas políticos que nosso país enfrenta, uma pandemia tomou o mundo todo e o colocou em suspenso... Parece que estou vivendo em um filme distópico e ruim...
E eu comecei a sentir uma grande angústia, uma vontade de voltar a escrever, mais para organizar meus pensamentos do que para qualquer outra coisa.
Então, voltei!
Exatos 5 anos e 3 meses depois do meu último post, estou de volta! Não vou estabelecer frequência de postagem; vou escrever sempre que conseguir, sempre que achar necessário, mas sem me prender a prazos.
Em breve, tô pensando em fazer algumas "reformas": um novo layout, novas cores... mas por enquanto vou deixar assim mesmo. Me perdoem a preguiça...
Meus pais vieram de Sapucaia, uma cidadezinha do interior do estado do Rio de Janeiro, separada de Minas Gerais apenas pelo Rio Paraíba do Sul, e que era muito mais mineira do que fluminense. Eu gosto de pensar que tenho um pé em Minas. Quase todos os domingos da minha infância e adolescência meus pais, eu e meus irmãos íamos para Vila Nossa Senhora Aparecida, um distrito de Sapucaia, onde meus avós moravam. Típica vila do interior: uma rua que atravessa o lugarejo se divide para dar lugar à praça da igreja matriz, e que continua depois dela, terminando na única escola do lugar. A melhor lembrança da praça era o coreto, onde nós, crianças, brincávamos de escorregar nos largos corrimãos da escada. E mais tarde, entrando na adolescência, trocávamos os primeiros olhares... E além do pão de queijo e da que eu considero a melhor culinária regional brasileira, Minas nos deu músicas maravilhosas! A minha escolha para hoje é um trem bão dimais da conta, sô!
Aniversário é sempre uma boa época pra refletir... acho que já disse isso no post abaixo.
Hoje eu queria pensar um pouquinho nas pessoas, musicas e coisas que fizeram parte da minha vida... vou listar algumas aqui, certamente vou esquecer algumas outras...
Também não sei se vou só lembrar de coisas boas: vou abrir a torneira das emoções e ver o que sai.
lista 1: lembranças do tempo de criança
- o vizinho que falava "borbofleta" e "desfedorante"
- música caipira nas manhãs de domingo, quando ia pra casa do meu avô, na roça (foi quando ouvi pela primeira vez Pena Branca e Xavantinho, Milionário e Zé Rico e por aí vai)
- minha mãe cantando hinos o dia todo; de vez em quando ela cantava umas músicas engraçadas como uma que dizia "sacode a saia e também o paletó; vou dançar com uma comadre, que é hoje só!"
- programa de rádio às cinco da manhã: seresta na madrugada (que outra criança acordava tão cedo no domingo pra ouvir isso?)
- as aulas de ebd na igreja e as consequentes discussões com a professora de religião católica do colégio
- minha bisavó materna, já cega pela catarata, fazendo crochê
- minha avó materna, que sempre tinha bolo quentinho e café passado na hora pra gente
- minha avó paterna, que quase não escutava, mas enxergava que era uma beleza e nunca precisou usar óculos
- meu avô paterno, que era o contrário da minha avó: não enxergava quase nada, mas tinha um ouvido!
- minha mãe me ensinando a bordar; acho que daqui vem a minha habilidade pelos trabalhos manuais
- meu pai, que mesmo com a cara de bravo, sempre foi um coração mole e quando ganhava presente nosso, fingia que estava guardando e ficava chorando escondido com o rosto dentro do armário
- as costuras das minhas tias
- a marcenaria dos meus tios; até hoje, gosto do cheiro de madeira cortada (menos o angelim, que tem um cheiro horrível!)
- a barbearia do meu pai; eu me encantava com aquela parede coberta de espelhos e aquelas cadeiras que giravam, abaixavam e levantavam (ainda trago uma aqui pra casa!)
- os livros: a floresta azul, memórias de um cabo de vassoura, o caso da borboleta atíria (li muito mais, mas esses foram os primeiros que li)
- brincadeiras de rua com os moleques da vizinhança; parte deles morava numa quase favela que era perto, mas ali a gente era só criança, ninguém ligava se a casa do outro era assim ou assado
- a primeira paquera na escola, já quase entrando na adolescência (rasguei o bilhete e deixei em cima da cama, minha mãe viu, juntou os pedaços e descobriu tudo...)
lista 2: lembranças do tempo de adolescente
- o primeiro beijo
- as poesias presas no portão
- a primeira amiga que fez aborto (a gente já tinha quase 18 anos)
- os primeiros questionamentos sobre Deus
- as férias em que minha mãe ficou revoltada porque eu peguei um monte de livros na biblioteca e passei o tempo todo dentro do quarto lendo, até que ela resolveu devolver todos os livros e me mandar ir brincar lá fora, como os outros adolescentes "normais"
- a morte da minha bisa, menos de três meses depois dos meus 15 anos; não me lembro de ter visto um dia de verão com o céu tão azul como aquele dia (o céu de inverno costuma ter o azul mais forte)
- a indecisão sobre que faculdade fazer: fiz inscrição para jornalismo, porque queria entrevistar bandido, mas não fui fazer a prova; queria fazer biologia, mas não queria ser professora; resolvi fazer veterinária
- aprender andar de moto aos 13 anos – era uma Yamaha TT 125 e o barulho dela parecia pipoca estourando; um dia caí ao tirar o descanso e nunca mais andei... quer dizer, só na garupa
- na mesma época, perder um amigo num acidente de moto; um grupo de amigos tinha passado a tarde lá em casa, todo mundo brincando, rindo, se divertindo... quando ele foi para casa, sofreu um acidente e morreu; tinha 16 anos
lista 3: lembranças do tempo de juventude e vida adulta
- o casamento secreto de uma amiga
- a ida para faculdade; sair de casa pela primeira vez e ir para outra cidade; deixar de ser a filhinha da mamãe para dividir o quarto com 3 estranhas, ter que cuidar da minha roupa e da minha comida
- aprender a sobreviver num mundo muito diferente do que eu estava acostumada
- conhecer pessoas que mesmo que nunca mais eu tenha visto, vão continuar para sempre no coração e na memória
- o amigo quase alcoólatra e o amigo viciado em cocaína
- ouvir saxofone na floresta da Tijuca
- ver o sol nascer na Barra
- conseguir a melhor nota da turma em Cirurgia: essa eu não esperava mesmo!
- meu casamento
- a morte do Senna, 15 dias depois do meu casamento
- a minha gravidez e a mudez do meu marido (hoje, ex-marido)
- nascimento da Mel; inesquecível, tranqüilo; parir e amamentar é bom demais! O clima na sala de parto, os amigos esperando lá fora...
- mudança para Chicago; sair do Rio com 40°C e descer numa cidade coberta pela neve e com a temperatura de -20°C!
- volta pro Brasil, início de outra faculdade, fim do casamento
- a morte de uma tia muito querida; ela tinha AIDS e câncer de fígado
- o suicídio de um amigo de adolescência, o que deixava as poesias no meu portão
- frio, muito frio na alma, por muito tempo
- borboletas no estômago, chuva, terra molhada
- longo caminho pela frente, mas com ânimo para começar a nova caminhada, afinal, a vida está começando agora!
É claro que aqui só tem uma parte muito pequena das coisas que eu vivi; só aquilo que lembrei assim de repente, sem pensar muito. Um dia ainda escrevo o que essas coisas todas me causaram, a minha reação a elas e o que eu imagino sobre como elas transformaram minha vida.
Para terminar, A Lista, uma música do Oswaldo Montenegro (a segunda dessas lembranças de aniversário), que sempre que ouço, me faz pensar.
A LISTA
Oswaldo Montenegro
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?