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quarta-feira, abril 14, 2021

Pizza fria

 



PIZZA FRIA

Quase meia noite, ela ouve um barulho da cozinha. Olhou da porta do seu quarto e viu que era sua mãe. Era 31 de dezembro, mas a doença da mãe impediu comemorações. E somando as restrições devidas à pandemia, nem tinham clima para isso. 

O pai estava dormindo. Sono pesado, de quem já viveu e trabalhou muito nos quase 84 anos de vida e luta.

Foi para a cozinha e resolveram dividir as três fatias de pizza que tinham sobrado do lanche feito mais cedo. E comeram assim mesmo, frias, acompanhadas pelo suco de uva, já que a mãe não gostava e nem podia tomar bebidas alcoólicas. 

Passaram a meia noite ali mesmo. E sozinhas na cozinha viveram muito provavelmente o último réveillon que dividiriam. O sentimento era de paz. 

Na mesa, pizza fria e suco de uva, o pão e o vinho da sua última ceia.

 


Marcia Carvalho

Teresópolis, 04 de abril de 2021

(Escrevi este texto enquanto minha mãe estava na última das muitas internações hospitalares que teve desde  março de 2020. Este relato não é ficção.)

sexta-feira, junho 26, 2009

HUMAN NATURE

Ontem, dia 25 de junho de 2009, Michael Jackson morreu.

Michael era 11 anos mais velho que eu. Quando nasci, ele já cantava junto com seus irmãos no Jackson Five. E cresci ouvindo suas músicas, vendo suas danças e tentanto repetir suas coreografias. Acompanhei seus altos e baixos e me entristeci com suas loucuras.

Hoje, uma certeza: vou sentir saudades! Michael fez parte da minha vida!

Aqui vai minha homenagem a ele: relembrar esse momento em que muita gente começou a ver que existem pessoas que precisam de ajuda, e que cada um de nós pode fazer a diferença.







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quarta-feira, novembro 26, 2008

CARTA AO AMIGO QUE SE SUICIDOU

Eu tive um amigo que se suicidou. (Verbo estranho esse: se ninguém pode suicidar outra pessoa, porque a obrigatoriedade do pronome reflexivo "se"?) Bem, quando o Ronaldo se foi, alguns questionamentos me invadiram. A gente já não se via há algum tempo, mas será que alguma coisa que eu fiz ou deixei de fazer poderia ter influenciado essa decisão maldita?

Por algum tempo, meu coração ficou atormentado com essas dúvidas; depois, como quase tudo na vida, elas também foram se
tornando em névoa, se dissipando, e acabaram por não mais incomodar. Até que eu li esse texto do Ricardo Gondim, que reproduzo lá embaixo.

A primeira pessoa em quem pensei quando vi o título foi o Ronaldo, não tinha como ser diferente. Lembrei dos seus grandes olhos azuis, do sorriso tão lindo, das nossas brincadeiras de adolescência, dos planos que ele tinha para o futuro... Bem, o futuro pra ele não chegou, mas ainda posso guardar na lembrança o rosto sempre sorridente do menino que morava do outro lado da rua e que deixava poesias em papeizinhos dobrados presos nas grades do meu portão...

Depois, pensei nos amigos com quem convivo atualmente. Lembrei dos mais próximos, dos nem tão próximos... daqueles que vejo praticamente todo dia, dos que eu vejo menos do que gostaria...

Pensei nas vezes em que pude dividir sorrisos, mas também nas em que dividimos lágrimas.

Pensei nas vezes em que fui ajudada, em que pude ajudar, em que precisei de ajuda e tive, em que precisei de ajuda e não tive.

Pensei nas vezes em que o afeto me foi dado e nas vezes em que chorei sozinha...

Pensei mais um monte de coisas... depois de tanto pensar, mais uma vez cheguei ao óbvio: amigos são a família que a gente escolhe; são pessoas maravilhosas, mas que como todos nós, tem seus defeitos; que muitas vezes podem nos ferir, assim como nós também fazemos...

Mas, acima de tudo,
amigos são um presente muito, mas muito precioso mesmo que Deus nos dá.

E eu agradeço a Deus por cada um dos meus amigos!
E peço a ele que me ajude a cuidar bem dessas pessoas com que me presenteou: cada uma com seu jeito, seu cheiro, seu gosto, suas certezas, suas dúvidas, seus acertos, seus erros... mas todas peças importantes nesse mosaico louco que é a nossa vida!



Carta ao amigo que se suicidou.
Ricardo Gondim

Quisera dar-te, amigo, todas as coragens que me tornaram ousado quando conquistei a mulher amada. Dar-te-ia também os medos que frearam a ensandecida ladeira da minha irresponsabilidade juvenil. Cortaria um pedaço do coração para transplantar para teu peito a felicidade do primeiro beijo que desvirginou os meus lábios. Eu também te convidaria para pedalar ao meu lado até a mangueira grande e discreta, onde, solitário, confidenciei em solilóquios intermináveis, alguns sonhos impossíveis.

Quisera dar-te, amigo, todos os questionamentos e descobertas que já fiz sobre o mistério de Deus. Eu te convidaria a assistir ao meu primeiro rasgo de conversão. E como, hesitante, desejei a verdade, a mesma verdade que insiste em distanciar-se de mim sempre que imagino tê-la em meus braços. Eu te faria parceiro da minha Primeira Comunhão católica em Londrina; chamaria para presenciar a noite da Profissão de Fé presbiteriana; convidaria para o culto de oração onde recebi o Batismo no Espírito Santo pentecostal; conversaria, inclusive, sobre a minha recente abertura para a espiritualidade existencial. Eu quisera ensinar-te que a jornada em direção ao Divino não é sempre ascendente, mas repleta de altos e baixos. Repartiria assim meus entusiasmos e tristezas para trançarmos nossa amizade como uma corda de muitos fios.

Quisera dar-te, amigo, os instantes magros em que não contabilizei fracassos, só encarei o dever de perseverar. As esperanças idealizadas não pareciam quixotismo. Os projetos faraônicos se mostravam perfeitamente alcançáveis. Tapei enormes buracos com minha ingênua boa vontade; relevei decepções, convencido que não passavam de mal-entendidos. Presentear-te com desapontamentos seria meu jeito de pedir: não desista. Não vire o tablado do jogo. A vida é assim; os homens não são sempre confiáveis, Deus sim.

Quisera dar-te, amigo, meu ouvido discreto, meu olhar atento, meu abraço silencioso. Sinto o ímpeto de colocar-me na trajetória da bala, na frente do trem, no olho do furacão, no meio do terremoto. Para poupar-te, estaria disposto a ser antídoto, escudo, parapeito, bóia, escada, pára-quedas. Faria qualquer coisa: massagem cardíaca, respiração boca a boca, transfusão de sangue. Podias fazer de mim psicanalista, confessor, saco de pancada. Não te condenaria. Não te cobraria. Não te rejeitaria, contanto que disseses que não jogaria a toalha.

Amigo, saber que segastes a vida por conta própria foi o golpe mais duro que já levei. E eu, que não te conhecia tão bem, acordei desolado neste mundo árido. Carregarei a sensação de que poderia ter sido o amigo mais achegado que um irmão. Não fui. E todos perdemos. Mas ao contrário de ti, não vou desistir, sei que ainda posso ser amigo de outro.

(Faz pouco tempo; ainda dói)

Soli Deo Gloria




quinta-feira, fevereiro 08, 2007

CENA DE CINEMA


Cena de Cinema; cena de filme de horror.
Não, não escrevi errado. Não é filme de terror. É filme de horror, mesmo.

Hoje, logo cedo, como faço todo dia, liguei o computador e vim dar uma checada nas noticias do jornal. O que eu vi me deixou sem saber o que pensar, como se alguma coisa em mim tivesse sido desligada.

João, um menino de seis anos, foi arrastado por bandidos que roubaram o carro onde ele estava por seis quilômetros. Os outros ocupantes, a mãe e a irmã de João, conseguiram sair do carro, mas João, não.

João ficou pendurado pelo cinto de segurança e os bandidos arrancaram com o carro. Percorreram quatro bairros, rodaram por dez minutos.

Eles sabiam que o menino estava lá. Andavam em zig-zag; será que queriam se ver logo livres da carga?

Quando chegaram a uma rua sem saída, abandonaram o carro e o pequeno corpo sem vida. E fugiram por uma estreita escadaria.

Eu fiquei sem palavras. Sem pensamentos.
Agora, algumas coisas me passam pela mente. Pela minha mente de mãe. E não consigo imaginar a dor daquelas mulheres. Não consigo porque parece que o cérebro me bloqueia as imagens. Porque quando a gente tem filho, a gente tende a ver no filho da gente o sofrimento dos filhos dos outros. E eu não consigo, não quero, não posso imaginar minha filha naquela situação. Naquele filme de horror.

Sempre odiei esse tipo de filme. Não vi nenhum deles. “O massacre da serra elétrica”, “Sexta feira 13”, “Jogos mortais”... não vi, não quero ver, não quero que me contem. São horríveis, mas, são apenas ficção. Ficção de horror, mas ficção.

A história de João não foi ficção.
Não foi:
tomada 1 - João tenta se livrar do cinto; a mãe se desespera porque não consegue; a irmã chora; João cai e fica pendurado... corta! (João se levanta e é substituído por um boneco igualzinho a ele)
tomada 2 - os bandidos arrancam com o carro e joão-boneco é arrastado enquanto bate com a cabeça e o corpinho na rua; pequenos pedaços de joão-boneco se esparramam no chão; uma trilha de sangue marca o caminho enquanto o carro se afasta...

Não, a história de João não foi ficção. João não era um boneco. João era um menino, como tantos outros por aí.

Deus tenha misericórdia da família de João.
Deus tenha misericórdia dos rapazes que colocaram um “the end” na história de João.
Deus tenha misericórdia de todos nós, que assistimos a tudo isso como quem vê um filme, um filme de horror, dando graças por não ter acontecido com um dos nossos meninos.


Marcia
(ainda sem palavras e com pensamentos bloqueados)

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quinta-feira, setembro 07, 2006

UM SONETO DE D. PEDRO I

Olhem só o que descobri: um soneto que D. Pedro escreveu quando ficou viúvo...


À Sempre para Mim Sentida Morte
da Minha Adorada Esposa a ...



Deus Eterno por que me arrebataste
A minha muito amada Imperatriz?
Tua divina vontade assim o quis?
Sabe que o meu coração dilaceraste.

Tu de certo contra mim te iraste,
Eu não sei o motivo, nem que fiz,
E co'aquele direi, que sempre diz:
Tu m'a deste, Senhor, tu m'a tiraste!

Ela me amava c'o maior amor,
E eu nela admirava a honestidade:
Sinto o meu coração quebrar de dor.

O mundo não verá mais n'outra idade
Modelo mais perfeito, nem melhor
D'honra e candura, amor e caridade.

[1826]


In: GUANABARA: Revista Mensal, Artística, Científica e Literária. Rio de Janeiro, v.2, n.3, p.96?, 1852

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terça-feira, junho 20, 2006

ONDE ESTAVA DEUS?


Reproduzo aqui a pastoral que meu pastor escreveu no boletim do domingo 18/06/06. Eu tinha pensado em escrever sobre isso, mas ele já fez tão bem...


Bento 16 visitou Auschwitz, na Polônia, o mais famoso campo de extermínio utilizado pelos nazistas. Calcula-se que em suas câmaras de gás foram mortos de 1940 a 1945 entre 1,1 milhão e 1,5 milhão de pessoas. Bento 16 passou uma hora e meia nesse local e fez aí um discurso. Os jornais do mundo inteiro deram destaque à pergunta de Bento 16: "Deus, por que o Senhor ficou em silêncio?", foi a manchete do jornal italiano La Repubblica. O diário alemão Berliner Zeitung reproduziu: "Onde estava Deus?"

A pergunta-oração foi muito infeliz, já que é justamente a que fazem os inimigos da fé. Previsivelmente provocou reações. O rabino Henry Sobel, em texto publicado em O Estado de S.Paulo, respondeu: "Com todo o respeito, permito-me responder ao Sumo Pontífice: Deus estava onde sempre esteve, esperando que os homens assumissem o seu dever".

A questão do mal no mundo, sendo multicausal, é muito complicada para se resolver num artigo de boletim, se é que tem solução? Mas acho que, no caso do nazismo, o rabino tocou o cerne da questão. No mundo há males que resultam da nossa negligência. Quando os homens não "assumem o seu dever", não adianta depois perguntar a Deus onde ele estava. Se cavo e deixo aberto um buraco no quintal e cai lá uma criança, como posso perguntar a Deus onde ele estava? Por outro lado, o que o rabino quis dizer é: onde estavam os chamados homens de Deus quando o nazismo matava e torturava? De que lado estava a igreja? Onde estava Pio 12, por exemplo? Por que os púlpitos alemães não confrontavam o povo com o seu pecado? Será que alguém chegou a pregar que o preconceito é pecado? Que lições podemos retirar hoje para a nossa vivência cristã a partir da omissão dos irmãos alemães?

Lamento, papa, mas o silêncio não foi de Deus.

Pr. João Soares da Fonseca

sexta-feira, abril 28, 2006

SUICÍDIO

(escrito em 28 de março de 2006)

Deu no jornal que a morte da atriz Ariclê Perez pode ter sido suicídio... No apartamento no 10º andar não havia sinais de arrombamento, ela tinha passado o dia sozinha, a janela é alta para que tenha sido um acidente, ela tinha deixado o número do telefone da família com o porteiro... Pode ser que sim, pode ser que não...


Qual o tamanho da dor que sente um suicida? Que vazio tão grande é esse que o empurra morte abaixo? No que se pensa depois do pulo? Quantas horas duram aquele segundos entre a janela e o chão?

Penso em tantas vezes que me senti profundamente triste, sem chão, sem alento, sem esperança... Tantas as vezes eu que quis sumir, evaporar... Mas, embora muitas vezes, como o salmista, me sentisse com o coração dolorido, cercada pelos cordéis de morte, na verdade mesmo queria é reencontrar a esperança, o sorriso, a mão amiga.

E tudo isso Deus providenciou... no tempo dEle, mas providenciou. A espera era difícil, dolorida, lavada em lágrimas... mas Ele nunca faltou.

Quantas vezes clamei por misericórdia... muitas vezes duvidando recebê-la... Mas Deus é fiel! E depois de sentir a mão de Deus me cercando, me cuidando , me protegendo, mesmo nos momentos de maiores dúvidas, meu coração fica mais leve ao ler que “O Senhor guarda aos símplices; fui abatido, mas Ele me livrou. Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o Senhor te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda.” (Salmo 116.6-8)

Hoje, lamento por aqueles que na hora do desespero não conseguem ver que Deus está ali, pronto para nos segurar com a sua mão forte, nos mostrar que acima da tempestade o céu continua azul, tranqüilo e com o sol a brilhar.

Lamento por cada pessoa que passou por mim e a quem eu não falei que Deus é amor e que esse amor faz a diferença. Tantas vezes senti essa vontade de chegar para alguém e dizer isso, mas em muitas delas, eu me calei... Como me dói cada oportunidade perdida!

Contudo, continuo contando com as misericórdias de Deus – que se renovam a cada manhã – e com a graça dEle – que me salvou apesar de mim mesma – para prosseguir, para levantar a cabeça e enxergar lá no horizonte o raiar de um novo dia...
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