sexta-feira, fevereiro 16, 2007

EU NÃO QUERO SER ESTÁTUA DE SAL!!!

Escrevi esse texto em junho de 2005, quase dois anos atrás.
Hoje senti vontade de colocá-lo aqui...




E conhecerão a verdade,e a verdade os libertará.” – João 8.32.
Se o Filho vos libertar, vocês de fato serão livres” – João 8.36.
Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo.” – 2 Co 5.17.
Busquem, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” – Mateus 6.33


Quando Deus decidiu destruir Sodoma e Gomorra por causa da podridão moral que ali reinava, Abraão intercedeu insistentemente com Deus e conseguiu que a família de Ló fosse salva. Duas únicas condições foram impostas: que não parassem em lugar algum da planície e que não olhassem para trás. “Mas a mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa coluna de sal.” – Gênesis 19.26.


Fico pensando no que significa para nós, hoje, esse “olhar para trás”. Alguns pensamentos surgem.


Primeiro, que Deus, por sua infinita misericórdia, esquece os nossos erros, perdoa os nossos pecados e os lança no fundo do mar (“... e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” – Miquéias 7.19). Então, eu posso olhar para frente, pois não preciso ficar lembrando o que fiz de errado: se Deus me perdoou, isso foi apagado.


Segundo, quando eu penso primeiro no Reino de Deus, o coloco como minha prioridade número 1 e me dedico a ter um relacionamento íntimo com Deus (“Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não os chamo servos, ... em vez disso, eu os tenho chamado amigos...” – João 15.14,15) não preciso ficar admirando o passado, pois tenho um grande amigo a quem posso confiar o meu futuro. Deus sabe muito melhor do que eu o que é melhor para mim e conhece todas as minhas necessidades. E vai suprir a cada uma delas de acordo com a Sua vontade, no tempo certo, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos.


Por último, eu não preciso do passado ou das coisas que tive ou vivi no passado, se hoje eu tenho a minha vida nas mãos de Deus. Não quero pedir “Restitui (sic), eu quero de volta o que é meu!” porque quando aceitei a Cristo, tudo se fez novo: eu não preciso das coisas antigas! Eu não preciso continuar clamando por liberdade, se acredito que o sacrifício de Jesus é suficiente para me libertar.


Não, eu não quero ficar olhando para trás, como se lá fosse encontrar algo melhor do que o que Deus tem para o meu presente e para o meu futuro. Eu não quero ser uma estátua de sal!


Marcia Carvalho



quinta-feira, fevereiro 08, 2007

CENA DE CINEMA


Cena de Cinema; cena de filme de horror.
Não, não escrevi errado. Não é filme de terror. É filme de horror, mesmo.

Hoje, logo cedo, como faço todo dia, liguei o computador e vim dar uma checada nas noticias do jornal. O que eu vi me deixou sem saber o que pensar, como se alguma coisa em mim tivesse sido desligada.

João, um menino de seis anos, foi arrastado por bandidos que roubaram o carro onde ele estava por seis quilômetros. Os outros ocupantes, a mãe e a irmã de João, conseguiram sair do carro, mas João, não.

João ficou pendurado pelo cinto de segurança e os bandidos arrancaram com o carro. Percorreram quatro bairros, rodaram por dez minutos.

Eles sabiam que o menino estava lá. Andavam em zig-zag; será que queriam se ver logo livres da carga?

Quando chegaram a uma rua sem saída, abandonaram o carro e o pequeno corpo sem vida. E fugiram por uma estreita escadaria.

Eu fiquei sem palavras. Sem pensamentos.
Agora, algumas coisas me passam pela mente. Pela minha mente de mãe. E não consigo imaginar a dor daquelas mulheres. Não consigo porque parece que o cérebro me bloqueia as imagens. Porque quando a gente tem filho, a gente tende a ver no filho da gente o sofrimento dos filhos dos outros. E eu não consigo, não quero, não posso imaginar minha filha naquela situação. Naquele filme de horror.

Sempre odiei esse tipo de filme. Não vi nenhum deles. “O massacre da serra elétrica”, “Sexta feira 13”, “Jogos mortais”... não vi, não quero ver, não quero que me contem. São horríveis, mas, são apenas ficção. Ficção de horror, mas ficção.

A história de João não foi ficção.
Não foi:
tomada 1 - João tenta se livrar do cinto; a mãe se desespera porque não consegue; a irmã chora; João cai e fica pendurado... corta! (João se levanta e é substituído por um boneco igualzinho a ele)
tomada 2 - os bandidos arrancam com o carro e joão-boneco é arrastado enquanto bate com a cabeça e o corpinho na rua; pequenos pedaços de joão-boneco se esparramam no chão; uma trilha de sangue marca o caminho enquanto o carro se afasta...

Não, a história de João não foi ficção. João não era um boneco. João era um menino, como tantos outros por aí.

Deus tenha misericórdia da família de João.
Deus tenha misericórdia dos rapazes que colocaram um “the end” na história de João.
Deus tenha misericórdia de todos nós, que assistimos a tudo isso como quem vê um filme, um filme de horror, dando graças por não ter acontecido com um dos nossos meninos.


Marcia
(ainda sem palavras e com pensamentos bloqueados)

.

terça-feira, janeiro 16, 2007

ALMAS PERFUMADAS

Esse texto foi escrito pra avó da autora...
Me pergunto quantas ediths passaram por minha vida...
... e se eu algum dia serei edith pra alguém...





Almas perfumadas
Ana Cláudia Saldanha Jácomo



Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.



sábado, dezembro 09, 2006

OSSOS SECOS, GALHOS E FLORES



Em Ezequiel 37, conta-se a visão de um vale de ossos secos: Ezequiel é levado pela mão de Deus e colocado no meio de um vale cheio de ossos secos. E Deus mostra a ele que aquilo que parece acabado, ainda tem solução... um estranho barulho começa e os ossos começam a se aproximar uns dos outros, e fáscias, tendões, vasos sanguíneos e músculos começam a surgir e cobrir aqueles ossos... órgãos se formam, pele recobre tudo... unhas e cabelos surgem... Vida onde antes não havia nem esperança!

Penso em quantas vezes me senti assim, no meio de muitos e muitos ossos secos. Sensação de deserto, exílio... Estou vivendo mais um período de ossos secos!

Não quero escrever da teologia do que aconteceu com Ezequiel; nem tenho conhecimento pra tal. Quero fazer um desabafo, lançar minhas lágrimas no vento, andar na beira do mar e sentir a água lavar minha tristeza...

Com quantos ossos secos se faz um deserto?
2006 foi um ano muito difícil pra mim, talvez um dos mais difíceis que já vivi. Repenso o que fiz, o que senti, o que vivi...

Arrependimentos? Alguns, com certeza...

Dores? Muitas...
Lágrimas? Incontáveis... mas quando elas se misturam com a chuva, quase ninguém vê...
Amigos de verdade? Poucos, pouquíssimos… Mas é melhor assim: nesse caso, qualidade é tudo!

Lições? Muitas, mas ainda falta absorver boa parte delas. Mas algumas ficaram gravadas, e foram gravadas a ferro e fogo, queimando, machucando... e devem ficar pra sempre.

Ossos, ossos, ossos… Meu vale anda cheio deles. E muitos vão continuar assim, só ossos secos…

Tem uma música muito antiga, nem sei quem canta, mas que eu gosto muito… o nome é Galhos Secos: “Nos galhos secos de uma árvore qualquer, onde ninguém jamais pudesse imaginar, o Criador vê uma flor a brotar. Olhai: os lírios cresceram no campo, pois o Senhor nosso Deus os tem alimentado para nossa
alegria."

E, assim como nessa música, eu vejo que mesmo em meio a tantos ossos secos, Deus tem feito brotar flores que me alegram o coração e me fazem suportar o silêncio dos ossos imóveis. Não vou citar os nomes, mas cada flor que apareceu no meu vale em 2006 um motivo pra sorrir.

Uma dessas flores me lembrou que só podemos ver bem os montes quando estamos no vale, como aconteceu tantas vezes com o salmista… e que por isso mesmo o vale é importante…

Outra flor me lembrou que quando o povo de Israel foi para mais um exílio (Jeremias 29.4-6), a ordem de Deus foi para que aproveitassem esse período para viver, plantar, construir… O exílio muitas vezes é período de crescimento…

Em uma outra flor eu vejo a alegria de saber que o navio está ancorado logo ali… só falta embarcar… e que a melhor hora do embarque é aquela marcada por Deus...

E tem aquela outra flor, que com um abraço gostoso (mesmo que muitas vezes só enchendo a tela do msn) sempre me faz sorrir...

E algumas outras só com um sorriso ou um olhar dizem tudo...

O silêncio ainda persiste... flores brotando costumam ser bem silenciosas... mas sei que ainda ouvirei o ruído dos ossos...
Onde há Deus (e existe lugar onde não há?), há esperança!

.

quarta-feira, novembro 29, 2006

IMAGEM

Essa poesia é da Ana do http://roccana.blogspot.com/ .
Mais uma que eu gostaria de ter escrito...




IMAGEM
.
em frente ao espelho
tiro a roupa
jogo tudo no chão
me olho
frente e verso
e me encaro
meu olhar é duro
seios
de quem amamentou
barriga
de quem pariu
pêlos
pernas afastadas
braços soltos
pés no chão
perfil
gosto do que vejo
em frente ao espelho
uma vida inteira
constato
que o espelho, cúmplice,
me sorriu
não pela imagem
que espelhava
mas por tudo
que intuiu
.
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