quinta-feira, fevereiro 05, 2009

VALSINHA



Valsinha

Chico Buarque


Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto,

Quanto era seu jeito de sempre falar

E não deixou-a só num canto

Pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

E aí ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar

E aí os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E aí dançaram tanta dança que a vizinhança logo despertou

E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz


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sábado, janeiro 24, 2009

UMA HORA TÃO TRISTE




Uma hora tão triste

Ricardo Gondim

O Getsemani foi a tua hora mais triste. Suaste sangue em teu exílio no fundo do outeiro. Foste traído. Estavas só, rodeado de amigos sonolentos.

Também vivo o meu exílio. A minha hora mais triste se arrasta faz anos. O dia mau chegou não sei quando, e se alonga perigosamente. Tenho medo. Não, não temo transpirar sangue, a ferocidade do sofrimento me amansou. Já me acostumei. Receio perder o rubor, embaçar os olhos e amargar a boca.

Minha dor lateja, queima, lacina. Enfraquece e rouba a iniciativa. Sem fôlego, converso sem graça. Para distrair, ando em círculo, deito na rede, abro a geladeira, corro os olhos no livro. Depois de cinco páginas, dou-me conta, enquanto lia pensava no vazio. Saio e dirijo, mas não lembro por onde passei. Deito e os pensamentos se desorganizam. A memória vira vulcão. Projetos mal acabados, decepções amorosas, espetadas de ex amigos, delírios religiosos, tudo explode e não concilio o sono.

Tento polir o passado com a ponta dos dedos, cerzir os erros, imaginar os outros caminhos que nunca escolhi. Tudo vão. Corro léguas para criar espaço entre coração e mente. Tudo vão. Ajoelhado, grito o Lamá Sabactani. Tudo vão. Recuo para não blasfemar. Tudo vão. Espero misericórdia. Tudo vão. Mudo o nome para Sísifo. Tudo vão.

A dor sepulta minha pouca leveza, sufoca minha rara espontaneidade, solapa o meu frágil entusiasmo. Não vejo benefício, funcionalidade ou propósito em gemer. Não fui punido, não pago por maldades de vidas passadas, não sou alvo da ira divina. Cumpri os mandamentos, chorei todos os pecados, lamentei as inadequações, penitenciei as omissões. Não é possível que ainda precise padecer tanto.

A dor não aceita explicações. Ela se assenhorou de mim. Agora ordena que a respeite como dona da minha sorte. Mesmo sem querer, aprendi a obedecê-la. Reconheço que nunca hei de derrotar a dor; por enquanto, só quero aprender a conviver com ela.

Soli Deo Gloria.

quarta-feira, novembro 26, 2008

CARTA AO AMIGO QUE SE SUICIDOU

Eu tive um amigo que se suicidou. (Verbo estranho esse: se ninguém pode suicidar outra pessoa, porque a obrigatoriedade do pronome reflexivo "se"?) Bem, quando o Ronaldo se foi, alguns questionamentos me invadiram. A gente já não se via há algum tempo, mas será que alguma coisa que eu fiz ou deixei de fazer poderia ter influenciado essa decisão maldita?

Por algum tempo, meu coração ficou atormentado com essas dúvidas; depois, como quase tudo na vida, elas também foram se
tornando em névoa, se dissipando, e acabaram por não mais incomodar. Até que eu li esse texto do Ricardo Gondim, que reproduzo lá embaixo.

A primeira pessoa em quem pensei quando vi o título foi o Ronaldo, não tinha como ser diferente. Lembrei dos seus grandes olhos azuis, do sorriso tão lindo, das nossas brincadeiras de adolescência, dos planos que ele tinha para o futuro... Bem, o futuro pra ele não chegou, mas ainda posso guardar na lembrança o rosto sempre sorridente do menino que morava do outro lado da rua e que deixava poesias em papeizinhos dobrados presos nas grades do meu portão...

Depois, pensei nos amigos com quem convivo atualmente. Lembrei dos mais próximos, dos nem tão próximos... daqueles que vejo praticamente todo dia, dos que eu vejo menos do que gostaria...

Pensei nas vezes em que pude dividir sorrisos, mas também nas em que dividimos lágrimas.

Pensei nas vezes em que fui ajudada, em que pude ajudar, em que precisei de ajuda e tive, em que precisei de ajuda e não tive.

Pensei nas vezes em que o afeto me foi dado e nas vezes em que chorei sozinha...

Pensei mais um monte de coisas... depois de tanto pensar, mais uma vez cheguei ao óbvio: amigos são a família que a gente escolhe; são pessoas maravilhosas, mas que como todos nós, tem seus defeitos; que muitas vezes podem nos ferir, assim como nós também fazemos...

Mas, acima de tudo,
amigos são um presente muito, mas muito precioso mesmo que Deus nos dá.

E eu agradeço a Deus por cada um dos meus amigos!
E peço a ele que me ajude a cuidar bem dessas pessoas com que me presenteou: cada uma com seu jeito, seu cheiro, seu gosto, suas certezas, suas dúvidas, seus acertos, seus erros... mas todas peças importantes nesse mosaico louco que é a nossa vida!



Carta ao amigo que se suicidou.
Ricardo Gondim

Quisera dar-te, amigo, todas as coragens que me tornaram ousado quando conquistei a mulher amada. Dar-te-ia também os medos que frearam a ensandecida ladeira da minha irresponsabilidade juvenil. Cortaria um pedaço do coração para transplantar para teu peito a felicidade do primeiro beijo que desvirginou os meus lábios. Eu também te convidaria para pedalar ao meu lado até a mangueira grande e discreta, onde, solitário, confidenciei em solilóquios intermináveis, alguns sonhos impossíveis.

Quisera dar-te, amigo, todos os questionamentos e descobertas que já fiz sobre o mistério de Deus. Eu te convidaria a assistir ao meu primeiro rasgo de conversão. E como, hesitante, desejei a verdade, a mesma verdade que insiste em distanciar-se de mim sempre que imagino tê-la em meus braços. Eu te faria parceiro da minha Primeira Comunhão católica em Londrina; chamaria para presenciar a noite da Profissão de Fé presbiteriana; convidaria para o culto de oração onde recebi o Batismo no Espírito Santo pentecostal; conversaria, inclusive, sobre a minha recente abertura para a espiritualidade existencial. Eu quisera ensinar-te que a jornada em direção ao Divino não é sempre ascendente, mas repleta de altos e baixos. Repartiria assim meus entusiasmos e tristezas para trançarmos nossa amizade como uma corda de muitos fios.

Quisera dar-te, amigo, os instantes magros em que não contabilizei fracassos, só encarei o dever de perseverar. As esperanças idealizadas não pareciam quixotismo. Os projetos faraônicos se mostravam perfeitamente alcançáveis. Tapei enormes buracos com minha ingênua boa vontade; relevei decepções, convencido que não passavam de mal-entendidos. Presentear-te com desapontamentos seria meu jeito de pedir: não desista. Não vire o tablado do jogo. A vida é assim; os homens não são sempre confiáveis, Deus sim.

Quisera dar-te, amigo, meu ouvido discreto, meu olhar atento, meu abraço silencioso. Sinto o ímpeto de colocar-me na trajetória da bala, na frente do trem, no olho do furacão, no meio do terremoto. Para poupar-te, estaria disposto a ser antídoto, escudo, parapeito, bóia, escada, pára-quedas. Faria qualquer coisa: massagem cardíaca, respiração boca a boca, transfusão de sangue. Podias fazer de mim psicanalista, confessor, saco de pancada. Não te condenaria. Não te cobraria. Não te rejeitaria, contanto que disseses que não jogaria a toalha.

Amigo, saber que segastes a vida por conta própria foi o golpe mais duro que já levei. E eu, que não te conhecia tão bem, acordei desolado neste mundo árido. Carregarei a sensação de que poderia ter sido o amigo mais achegado que um irmão. Não fui. E todos perdemos. Mas ao contrário de ti, não vou desistir, sei que ainda posso ser amigo de outro.

(Faz pouco tempo; ainda dói)

Soli Deo Gloria




segunda-feira, novembro 03, 2008

CONSELHOS PARA A VIDA

Texto de Ricardo Gondim


Viver não é para amadores. Cuidado, não se perca! Portanto, muito siso.

Cuidado com as palavras. Não fale sem pensar; não dispare conceitos sem considerar quem lhe ouvirá. Não prometa milagre sem levar em conta a mãe que, naquele exato momento, troca as fraldas do filho tetraplégico. Não se gabe de ter acordado com saúde; o que essa gratidão significará para o homem que mal se recuperou da hemodiálise? Nunca defenda verdades livrescas, proteja o que promove a vida, considera o perdão e espalha o bem.

Cuidado com o comportamento. Não priorize desafios estratosféricos, tenha tempo para as pessoas. Não lute para cumprir roteiros alheios, prefira a alegria de arrepiar a pele com o afeto gratuito de gente simples. Não se satisfaça em imitar os bem sucedidos, escolha ser um caderno cheio de rabiscos mal corrigidos a uma Suma acadêmica. Não permita que as suas convicções se tornem exigentes, não se deixe suicidar por sua lucidez. Cante mesmo desafinando e dê de ombros se lhe acharem biruta. Fale sozinho. Não tenha vergonha de brigar diante do espelho, aponte o dedo e diga: “como você é ridículo”.

Cuidado com as companhias. Exile-se de seu castelo e vá ao encontro da mulher que aprendeu a voar com a elegância das aves que fogem do inverno. Seja parceiro de quem não esconde a lágrima na hora da emoção. Enlace o amigo que saiu em busca de si – ele pode ajudar a encontrar o homem que um dia você foi. Contudo, não se blinde contra o medíocre, acolha graciosamente quem lhe feriu e seja longânimo com o vil. Desça ao fosso onde jazem e peça um traço de luz para colorir suas patéticas existências.

Cuidado com os sentimentos. Abra-se para o imponderável e se atreva a viver sem apoios. Não tema a insegurança do porvir duvidoso. Arrisque-se, exponha-se. O cauteloso acaba pachorrento. Vidas bem pautadas são exemplos de pusilanimidade. Coma fruta da árvore, sem lavar; dance bolero; tente aprender judô; seja voluntário da Cruz Vermelha; compre pastel de feira-livre.

Cuidado com o tempo. Fixe o átimo ligeiro em sua retina. Torne-se um colecionador de momentos. O tempo passa como uma enxurrada, leva tudo e todos, mas não destrói o que a “alma provou e aprovou”. A mente só guarda o que lhe trouxe alegria, portanto, aprenda a transformar os espaços em catedrais, os dias em sábados, os encontros em alianças e as preces em poesia.

Aconselho tanta precaução porque a vida é frágil e fácil o caminho para a infelicidade. Antes que o coração fatigado se recuse a bater, antes que os olhos se fechem com a tristeza da morte, insisto, tome cuidado.

Soli Deo Gloria

terça-feira, setembro 09, 2008

QUANDO DEUS APARECE

Sempre achei que Deus aparece muitas vezes pra nós de uma forma tão simples que algumas pessoas não conseguem identificá-lo.

Estou muito longe de ser uma panteísta, mas acho que Deus se manifesta nas pequenas coisas que nos cercam.


Quando li esse texto hoje, vi que concordo com muito do que a Martha escreveu.
E o achei de uma simplicidade tão grande que resolvi colocá-lo aqui.




QUANDO DEUS APARECE



Tenho amigas de fé. Muitas. Uma delas, que é como uma irmã, me escreveu um e-mail poético, dia desses. Ela comentava, em detalhes, sobre o recital a que ela assistiu do pianista Nelson Freire, recentemente. Tomada pela comoção durante o espetáculo, ela finalizou o email assim: “Nessas horas Deus aparece.”


Fiquei com essa frase retumbando na minha cabeça. De fato, Deus não está em promoção, se exibindo por aí. Ele escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente. Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós. Eu não sou uma católica praticante e ritualística – não vou à missa. Mas valorizo essas aparições como se fosse a chegada de uma visita ilustre, que me dá sossego à alma.


Quando Deus aparece pra você?


Pra mim, ele aparece sempre através da música, e nem precisa ser um Nelson Freire. Pode ser uma música popular, pode ser algo que toque no rádio, mas que me chega no momento exato em que preciso estar reconciliada comigo mesma. De forma inesperada, a música me transcende.


Deus me aparece nos livros, em parágrafos em que não acredito que possam ter sido escritos por um ser mundano: foram escritos por um ser mais que humano.


Deus me aparece – muito! – quando estou em frente ao mar. Tivemos um papo longo, cerca de um mês atrás, quando havia somente as ondas entre mim e ele. A gente se entende em meio ao azul, que seria a cor de Deus, se ele tivesse uma.


Deus me aparece – e não considere isso uma heresia – na hora do sexo, desde que feito com quem se ama. É completamente diferente do sexo casual, do sexo como válvula de escape. Diferente, preste atenção. Não quero dizer que qualquer sexo não seja bom.


Neste exato instante em que escrevo, estou escutando “My Sweet Lord” cantada não pelo George Harrison (que Deus o tenha), mas por Billy Preston (que Deus o tenha, também) e posso assegurar: a letra é um animado bate-papo com Ele, ritmado pelo rock’n’roll. Aleluia.


Deus aparece quando choro. Quando a fragilidade é tanta que parece que não vou conseguir me reerguer. Quando uma amiga liga de um país distante e demonstra estar mais perto do que o vizinho do andar de cima. Deus aparece no sorriso do meu sobrinho e no abraço espontâneo das minhas filhas. E nas preocupações da minha mãe, que mãe é sempre um atestado da presença desse cara.


E quando eu o chamo de cara e ele não se aborrece, aí tenho certeza de que ele está mesmo comigo.



Martha Medeiros

Revista O Globo, 24/agosto/2008


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