
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso,
o folhear de um livro,
o cheiro que tinha o próprio vento.
Mario Quintana
Aqui vou colocar um pouquinho do que tenho visto, lido, sentido, pensado...
Coisas que de alguma forma me fizeram refletir...

PERTENCER
Clarice Lispector
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. (...)
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!
"É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina."
(Nietzsche)
Há dois dias vi essa frase no perfil do orkut de um amigo. E tenho pensado nela desde então. Nela e em outras turbulências que têm formado o meu caos particular.
E também há dois dias, vi um dvd de uma pregação do Caio Fábio onde ele contou a sua história. Por diversas vezes me identifiquei tanto com o que ele falava, que parecia que era a minha história. E quando digo isso, não estou me referindo a fatos, mas a situações.
Como é difícil você fazer alguma coisa com o coração aberto, despido de qualquer intenção que não a primeira - única, nesse caso - e ser mal entendido, mal interpretado, injustamente acusado.
Como é difícil chegarmos a um ponto onde tudo parece estar bem, em que dali para frente parece que tudo vai dar certo, mas exatamente ali, tudo começa a dar errado.
Como é difícil agüentar mais uma pancada, quando parece que tudo já dói tanto. E pior ainda é saber que as coisas que mais nos machucam são aquelas que vêm de quem nós não esperamos... porque quando esperamos, já estamos preparados para resistir.
Tantos fragmentos, frases e palavras daquela mensagem ficaram ecoando dentro do meu caos!
No dvd da mensagem, o Stênio Marcius canta uma música linda, chamada “O Tapeceiro”:
Tapeceiro, grande artista,
Vai fazendo seu trabalho
Incansável, paciente no seu tear
Tapeceiro, não se engana
Sabe o fim desde o começo,
Traça voltas, mil desvios sem perder o fio
Minha vida é obra de tapeçaria,
É tecida de cores alegres e vivas,
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso,
Nem imagina o desfecho
No fim das contas, tudo se explica,
Tudo se encaixa, tudo coopera pro meu bem
Quando se vê pelo lado certo,
Muda-se logo a expressão do rosto,
Obra de arte pra Honra e Glória do Tapeceiro
Quando se vê pelo lado certo,
Todas as cores da minha vida
Dignificam a Jesus Cristo, o Tapeceiro
O grande alento é saber que Deus trabalha com cada um dos meus fragmentos, para dar ordem ao caos e tecer a minha vida. Mesmo que eu não consiga perceber como isso ocorre, porque muitas vezes a dor é tão forte que quase me cega, o Tapeceiro vai tecendo...
E vai tecendo... até que do caos nasça uma estrela dançarina...
Esse vídeo do youtube mostra o Stênio cantando essa mesma música, mas em outra igreja: