terça-feira, maio 08, 2007

DE FLECHA A ARCO

Mais um dia das mães chegando... Há 11 anos eu deixei de ser apenas filha para ser também mãe...

Hoje reli esse texto do Gibran Kalin Gibran, que eu citei no meu discurso de formatura do que já foi chamado "2º grau" e hoje se chama ensino médio.

É diferente lê-lo pelo ângulo do arco, quando antes eu tinha o ângulo da flecha.

Sou arco há 11 anos... aprendi muito nesse tempo... e como ainda tenho que aprender!

Bem... o texto está aí...








OS FILHOS
GIBRAN KALIL GIBRAN

Vossos filhos não são vossos filhos: são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós, e embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força, para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.



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segunda-feira, abril 16, 2007

PARA QUE SERVE UMA RELAÇÃO?

Hoje recebi esse texto de uma amiga, a Andressa. Já o conhecia há algum tempo... é realmente muito interessante!

Eu sempre gostei dos escritos do Dráuzio... comecei lendo Carandiru, depois um livro meio autobiográfico sobre a infância passada num bairro de São Paulo, li também Por um fio, relato lindo de pessoas que estavam com sua vida por um fio...

Brigadão, Andressa!




Para que serve uma relação?
Drauzio Varela

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara um omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.


Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.

Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

Se entendêssemos assim, não haveria tantas pessoas sozinhas...


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terça-feira, abril 03, 2007

MEU CORAÇÃO É FEIO!





Há algum tempo, ouvi uma história... Ela falava de um lugar onde todo mundo tinha o coração exposto, do lado de fora do peito. E eram vistos corações de todo o tipo: grandes, pequenos, macios, duros...

Naquele lugar morava um rapaz que se orgulhava de seu coração. Ele tinha o coração mais bonito dentre todas aquelas pessoas; um coração grande, forte, sem uma marquinha...

E naquele mesmo lugar morava um velho. E o coração do velho não era bonito. Pelo contrário: era feio, cheio de remendos, remendos de diferentes cores e aparência... até alguns pedaços faltando e feridas abertas aquele coração tinha. Definitivamente, era um coração feio!

Um dia, o rapaz e o velho se encontraram. O rapaz perguntou ao velho se ele não tinha vergonha de andar com aquele coração tão feio exposto.

O velho respondeu que aquele coração feio e remendado foi resultado da vida que ele levara. Cada remendo era um pedaço de um outro coração, sinal de que alguém passou por ali e deixou uma lembrança... cada ferida aberta, sinal de alguém passou por ali e só levou algo, sem deixar nada em troca... cada pedaço faltando, sinal de que algo foi dado pra alguém que precisava mais.

E terminou dizendo pro rapaz que feio era aquele coração tão perfeito, tão intocado, sinal de que ninguém tinha passado por ali, nem pra trocar, nem pra deixar, nem pra levar nada.

Hoje essa história me veio na cabeça. E ela me lembra uma coisa que ouvi há muito tempo, de uma amiga: “há pessoas que passam por nós e deixam um pouco de si; outras passam e levam um pouco de nós; algumas não passam, ficam”.

Fico pensando em como deve estar meu coração.
Certamente, ele não é como o daquele rapaz.

Tá cheio de remendos, sem dúvidas... tantas experiências, tantas trocas... Tanta coisa boa trocada... sinal de que alguns corações também levam um pedacinho do meu...

Pedaços faltando? Sem dúvida! Quantas vezes abri mão de uma coisa por saber que outras pessoas precisavam mais dela? Mas, com certeza, deve ter um ou outro coração por aí faltando um pedacinho que me foi dado...

Feridas abertas? Claro! Quem não as tem? Sinal de que alguém passou por aqui, arrancou o que precisava e nem se importou com mais nada... nem viu as lágrimas que causou... Mas como diz um amigo meu, isso é bíblico: dos dez leprosos, só um voltou pra agradecer...

Lágrimas molham meu coração constantemente. Tanto as que lembram que as feridas estão ali - e por vezes ainda doem - como as que lembram cada pedacinho que me foi dado, símbolo do amor que une as pessoas, sejam elas família, amigos ou alguém que só cruzou sua vida por um instante, mas que por algum motivo, se tornou especial.

É, sem dúvida meu coração é feio!
E como é bom saber disso!
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sábado, março 31, 2007

SILÊNCIO 2



"Me olho no espelho.

Nunca saberei como os outros me vêem, este eterno enigma.

Então finjo que sou outra.

Me olho de viés: será que eu vim de tão longe?

Há um silêncio de trem enguiçado no fundo dos meus olhos."


(Roseana Murray, no livro O Silêncio dos Descobrimentos)
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quinta-feira, março 15, 2007

RODA VIVA


"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu..."

Assim começa uma música linda, do grande Chico Buarque. E como tem dias em que a gente pode se sentir assim...

Esse último mês aqui no Rio a coisa ficou feia... ou sempre foi feia e só se mostrou mais uma vez.

A violência fez um monte de vítimas, desde o brutal assassinato do João Hélio a muitas vítimas de balas perdidas. Pra quem fica, a dor é a mesma.

A mãe de Alana, menina de treze anos, morta por uma bala perdida quando voltava da creche onde tinha deixado o irmão mais novo, foi entrevistada por um repórter que perguntou quais os sonhos que Alana tinha. A resposta doeu lá dentro: “Moço, quem nasce no morro não tem sonho, não”.

Às vezes eu choro os meus sonhos destruídos, as minhas dores... tudo parece tão grande! Mas quando vejo o que ocorre a minha volta, percebo como eu tenho tão pouco do que reclamar!

Essa semana um rapaz foi morto dentro de casa, num bairro onde fizemos evangelismo com o pessoal da igreja em janeiro. Carlos, 19 anos, morava na rua Tomaz Rabelo, na Cidade Nova. A rua dele não estava entre as que seriam de minha responsabilidade visitar durante o projeto. Sei que alguém da equipe deve ter passado por lá. Tomara que ele tenha tido a chance de ouvir sobre o amor de Deus...

Nessa semana eu ouvi o pastor Russell Shedd. Ele é um dos grandes pregadores da atualidade. Aliás, eu o ouço desde sempre; foi uma das minhas referências como homem de Deus.

Ele falou sobre o papel da família na teologia paulina. Para resumir (e muito), o que ele disse foi que a família é a base da sociedade e que enquanto as famílias forem o que vemos hoje, não vai mudar muita coisa. Pra ele, a solução é um verdadeiro avivamento; aí sim, teríamos as famílias restauradas e a sociedade mais justa.

Enquanto isso, vamos vivendo a nossa roda-viva...



RODA-VIVA
Chico Buarque


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
No volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

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